Literatura – Victor Hugo – “Os Miseráveis”
A literatura é um conjunto de obras escritas ou orais à quais se reconhece um valor estético. Ela permite ao autor manifestar suas emoções e seus pensamentos, enquanto revela aos leitores ou àqueles que escutam, o que ele tem em seu coração, o que ele transmite em letras, ou seja, sua mensagem. O termo “literatura” vem do latim “littera” (letra), e aparece no começo do século XII, na civilização europeia, como “coisa escrita”, depois evolui até o final da Idade Média, como “saber tirado dos livros”, e finalmente, no século XVII e seguintes, a literatura começa a adquirir seu sentido atual, ou seja, o conjunto de obras escritas ou orais que comportam uma dimensão artística. Na atualidade, permite-se pensar que seu alcance vai além, posto que a literatura visa educar, comunicar pensamentos, influenciar e até cativar seus leitores ou ouvintes; por isso a literatura exerce também uma função ética, aquela que destaca o comportamento humano frente à realidade social. A literatura constitui uma herança de bens culturais e morais, e pode concorrer à preservação do patrimônio de um país, posto que ela realça seus valores, sua cultura e civilização. É admissível afirmar-se que a literatura, assim como a arte em geral, tem uma missão civilizatória, e que junto ao conteúdo de um livro, por exemplo, encontram-se ali também valores que transmitem as verdades de uma sociedade. Um caso exemplar do que afirmamos até agora, é o do escritor francês do século XIX, Victor Hugo, o qual nasceu em 1802 e morreu em 1885. Victor Hugo foi poeta, romancista, dramaturgo, desenhista e pintor, ao mesmo tempo em que exercia suas funções políticas de senador e conselheiro real. Sua obra-prima, “Os Miseráveis”, data de 1862, é composta de cinco tomos, contém 513.000 palavras, nas edições atuais em formato de “livro de bolso”, seus dois volumes comportam um total de 2.000 páginas. Nesse romance emblemático da literatura francesa e de reconhecimento mundial, no qual se descreve a vida dos pobres em Paris e no interior da França do século XIX, o autor fixa-se particularmente no destino do presidiário Jean Valjean. Resumo de “Os Miseráveis”: a ação desenvolve-se na França, ao longo do primeiro terço do século XIX, entre a batalha de Waterloo (1815) e as revoltas sociais de junho de 1832; nós, leitores, seguimos a vida de Jean Valjean, desde sua saída da prisão até sua morte; ao redor desse personagem central, gravitam outros também miseráveis ou próximos da miséria, tais como Fantine, Cosette, Marius, a família Thénardier, e também o representante da lei, o policial Javert. Jean Valjean é um presidiário que foi liberado há pouco, o qual fora acusado de ter roubado um pão para alimentar seus sobrinhos pequenos. Ele parte do sul de França e dirige-se à região próxima de Paris; no trajeto, é acolhido pelo monsenhor Bienvenu, sacerdote compreensivo e caridoso; ali, Jean Valjean é tratado com respeito e bondade, exatamente o contrário de todos os maus-tratos que sofrera em prisão. Com o passar do tempo, o ex-presidiário revela-se um homem empreendedor, começa a fabricar bijuterias, instala uma fábrica, e termina por abrigar muitos empregados, a quem dá trabalho, salário e bom atendimento social. Ele encontra na rua, eventualmente, uma jovem que se prostitui devido à miséria em que vive, ela chama-se Fantine, ele demonstra piedade e a protege de ser encarcerada por muito tempo; essa moça está tuberculosa, e em certo momento, revela ter uma filhinha, Cosette; ela pede a Jean Valjean que ele retire a menina da família com quem ela deixara a criança; essa família é a dos Thénardier, de quem Jean Valjean consegue reaver a menina, depois de muito esforço. Fantine morre antes de rever sua filha; Jean encerra as atividades de sua fábrica, e adota a pequena Cosette como se fora sua filha; a menina, que sempre fora maltratada pelos Thénardier, finalmente encontra o amor paterno e uma boa educação, na escola sob regime de internato de um convento de freiras. O tempo passa, acontece, em Paris, a insurreição popular de 1832, Cosette já é uma mocinha de fina civilidade, por acaso encontra-se com Marius, filho de um antigo coronel do exército de Napoleão I; Cosette e Marius apaixonam-se e casam, e Jean Valjean, que une as mãos dos dois jovens, simplesmente chega ao final de sua existência terrena e, naquele momento, nas palavras do autor, “algum anjo imenso estava de pé, as asas estentidas, esperando a alma”. Enfim, compreendemos que a união de Cosette e Marius compõe a nova França que virá, na esperança de surgir um contexto social livre de abusos e de perseguições, mas, ao contrário, uma sociedade em que os “miseráveis” finalmente terão a chance de serem bem alimentados, educados e, por isso mesmo, os realizadores do pensamento revolucionário de “liberdade, fraternidade e igualdade”. Trata-se de um romance histórico, social e filosófico, no qual se encontram os ideais de Victor Hugo sobre a natureza humana, assim como os do romantismo, a saber, a reação do sentimento contra a razão e a exaltação da bravura individual frente às adversidades da vida; a obra já foi adaptada para o cinema, o teatro, a televisão, o teatro musical, entre outros. O romance tem por inspiração três vertentes: o realismo da descrição dos sofrimentos dessa gente humilde, e da luta de superação de sua miséria; ainda conta também com os atos descritivos da epopeia que foi a batalha de Waterloo, representante do fim de Napoleão I e do início da burguesia francesa; e conta ainda com um chamado “hino ao amor’, o amor cristão do monsenhor que salva Jean Valjean da miséria moral, o amor a sua pátria, e o amor dos jovens Cosette e Marius que formarão a França do futuro. Com efeito, pode-se afirmar que a motivação principal do autor ao escrever este romance, foi a de realizar uma “defesa social”: em um trecho, ele nos diz que “há um ponto onde os infames e os infelizes misturam-se e confundem- se em uma só palavra, palavra fatal, os miseráveis; de quem é a culpa?” Segundo Hugo, a culpa é da miséria, da indiferença e de um sistema repressivo sem piedade; como idealista, Hugo está convencido de que a instrução e o respeito individual constituem a única chance da sociedade de impedir que o miserável se transforme em um delinquente. No final de seu romance, Victor Hugo faz um apelo à humanidade para que ela não cesse de trabalhar para se ter tempos melhores: “Enquanto existir,…uma decadência social criando…,em plena civilização, infernos,…enquanto perdurarem os três maiores problemas do século,…a degradação do homem, a decadência da mulher, a atrofia da criança,…esses problemas não serão resolvidos;…enquanto houver sobre a terra ignorância e miséria, livros como este poderão ser úteis.” A literatura nos ensina sempre, então, porque não fazermos dessa “defesa” de Hugo nosso perene compromisso intelectual e afetivo?
