Teatro – Terceira parte: Teatro do absurdo
Rinocerite
Essa palavra acima, “rinocerite”, não existe, na verdade, mas é ela que melhor exprime a situação que se instala e que contagia a todos em uma pequena e desconhecida cidade, em uma peça teatral chamada “Rinocerontes”, de Eugênio Ionesco. Essa obra teatral foi escrita em 1959 e encenada pela primeira vez na Alemanha e em seguida, em 1960, na França, além de ser o marco inicial do chamado “teatro do absurdo”. O teatro do absurdo é um estilo de teatro que aparece no século XX e que se opõe ao realismo, à época imediatamente posterior à Segunda Guerra Mundial, e o qual se caracteriza pela ruptura com os gêneros teatrais clássicos, como o drama ou a comédia, e ainda esse rompimento expressa-se na falta de continuidade ou de lógica aparente nas ações e falas, ou mesmo na ausência de diálogos entre seus personagens; é o teatro que trata do absurdo que se instala na vida do homem e da sociedade, a partir da falta de humanismo escancarada na brutalidade das lutas recentes entre as nações. O precursor desse tipo de representação teatral, Ionesco, nasceu na Romênia, em 1909, viveu intermitentemente em França a partir de 1913, obtém a nacionalidade francesa em 1950, e morreu em Paris, em 1994; ele e seus familiares padeceram tanto sob o regime nazista como sob o regime comunista, e considera-se que aí está a gênese desse tipo de representação, como é o caso de “Rinocerontes”. Trata-se de uma peça de teatro em três atos, ela descreve uma epidemia imaginária de “rinocerite” em uma pequena cidade, doença que aterroriza seus habitantes e transforma todos em rinocerontes, animais brutais, sem nenhum traço de piedade humana, os valores morais e sociais caem por terra e surge somente o emprego da violência e da brutalidade. Ser humano não mais interessa, ser brutal, sim, amor e arte são ultrapassados pela delação e a confrontação verbal e pessoal do ódio. Escrevemos, acima, que todos são contagiados pela rinocerite, mas, na verdade, um só morador resiste e não se transforma em rinoceronte; esse personagem chama-se Beranger; ele assiste a tudo e faz o que pode para impedir o avanço dessa doença, mas sendo impossível contê-la, ele será o único ser humano dessa cidade. A epidemia avança a cada ato da peça; no primeiro, os moradores ficam muito assustados com a invasão daqueles rinocerontes inesperados, e chocam-se ao ver seus animais de estimação serem pisoteados e mortos, mas sempre há alguém para gritar que isso pouco importa, e assim segue; no segundo ato, em seguida, outros ficam fascinados com os belos discursos e as vozes fortes que exaltam os atos destrutivos; e, finalmente, no terceiro ato, todos (ou todos menos um) conformam-se com a situação e acham que é melhor não resistir, afinal de contas, as coisas parecem ser até melhores quando somos mais fortes e impiedosos, não sofremos e assistimos aos fracos sofrerem, o que há melhor do que isso? Beranger pensa muito e, depois de muitos refletir e até após forte hesitação, ele decide não capitular e grita: “Eu sou o último homem, eu o serei até o fim! Eu resisto!” Nessa peça, muitos veem a denúncia dos regimes totalitários, e ainda o comportamento gregário da multidão que o seguem sem resistir, desistindo de confrontar-se com esse “atentado” à condição humana que acabará por transformar os homens em monstros; o autor prega o pensamento de que não é normal um homem transfigurar-se em rinoceronte; trata-se de uma violenta sátira aos comportamentos confrontados ao surgimento de uma ideologia da violência e que demostram indiferença com o que possa acontecer ao final. Cabe a todos nós, que pretendemos carregar em nossos corpos a luz do raciocínio e a sensibilidade de nossa consciência dos outros, não deixar escapar a oportunidade e refletir sobre a frase final de “Rinocerontes”: “A vida é uma luta, seria covarde não lutar”.
