Doze contos peregrinos, 1992
Gabriel García Márquez, 1927 – 2014
Os contos a que nos referimos, acima, são ditos peregrinos por uma causa, a saber, seu autor, o escritor colombiano Gabriel García Márquez, estabeleceu cada um dos relatos em uma cidade diferente na Europa, ora Genebra, ou Roma, também Barcelona ou ainda Paris, entre outras. Gabriel García Márquez tem uma vasta obra, escreveu dezenas de livros, entre os quais, os mais notórios são “Cem anos de Solidão”, de 1967, “Crônica de uma morte anunciada”, publicado em 1981, “O amor em tempos de cólera”, 1985, mas também dedicou seu talento à produção de contos, novelas, e diversos artigos jornalísticos, sendo que em todos seus escritos destaca-se sua filiação ao chamado realismo mágico, ainda contando com notas históricas, humorísticas, satíricas ou dramáticas. Compreende-se esse assim chamado realismo mágico como a forma de arte, seja literária ou uma pintura ou ainda um filme, em que a vida cotidiana é vista com uma lente fantástica que descobre no universo do dia a dia o que este pode ter de diferente ou maravilhoso; é evidente que, para isso, o autor precisa exercer sua capacidade de expansão onírica e ali captar o que mais ninguém visualizara. Pois bem, Garcia Márquez consegue realizar esse salto do comum ao inusitado, tratando-o como algo que sempre ali estivera, lançando mão de seu magnetismo literário que o atrai e que nos devolve essa circunstância comum agora enriquecida pela admiração e fascínio de seu leitor. O talento do autor é reconhecido e ele recebeu diversos prêmios, dos quais o maior deles é o Prêmio Nobel de Literatura, em 1982, sendo que o laudatório da Academia Sueca justifica a láurea pelo fantástico e o real combinados em um tranquilo mundo de imaginação rica, refletindo a vida e os conflitos, em seus romances e histórias curtas. Dedicamos nosso texto, exatamente, a alguns desses relatos breves ou contos; o autor levou dezoito anos para completá-los e, por fim, eles encontram-se unificados por um tema central: histórias que vão do cotidiano ao extraordinário, de pessoas de origem latino-americana na Europa, continente muito distante dos costumes que os personagens carregam no mais profundo do coração. Seus títulos são, em ordem da coletânea estabelecida pelo autor, mesmo que fora de disposição cronológica: “Boa viagem, senhor Presidente”, datado de 1979, “A santa”, de 1981, “O avião da bela adormecida”, de junho de 1982, “Alugo-me para sonhar”, março de 1980, “Somente vim telefonar”, abril de 1974, “Espantos de agosto”, de outubro de 1980, “Maria dos Prazeres”, maio de 1979, “Dezessete ingleses envenenados”, abril de 1980, “Tramontana” (que significa o vento que sopra do norte), escrito em janeiro de 1982, “O verão feliz da senhora Forbes”, 1976, “A luz é como a água”, dezembro de 1978, e “O rasto de teu sangue na neve”, 1976. Dessa coleção de contos, tomo a liberdade de destacar os temas diversos de dois deles, “Alugo-me para sonhar” e “A luz é como a água”. No primeiro deles, datado de 1980, conta-se a história de Frau Frida, cujo verdadeiro nome não se conhece, e que é portadora de um dom que lhe permite sonhar em lugar das pessoas, ou seja, ela sonha para quem a contrata para tal. Frau Frida trabalha por muito tempo para uma rica família em Viena, depois ela parte a viajar por vários países do mundo realizando sua missão, até que um dia, no Caribe, é vítima da força de um furacão, termina projetada contra um muro e assim ela encontra a morte. O outro conto intitula-se “A luz é como a água”, de 1978; nele, conta-se a história de uma família que mora em Madri, cujos filhos querem muito navegar, e os pais terminam por permitir, desde que as crianças consigam boas notas na escola. Os pais dão-lhes uma barca de presente, a qual é instalada em seu quarto. Mais adiante, eles perguntam ao pai porque o mar brilha tanto, e o senhor responde que é porque a luz é como a água. Lembrando-se dessa frase, uma tarde, quando encontravam-se sozinhos em casa, os meninos quebram uma lâmpada e inundam o apartamento de luz para navegar. Eles não dizem nada a seus pais, mas adiante, pedem um equipamento de mergulho para poder nadar nas profundezas do apartamento inundado de luz e, como têm conseguido boas avaliações escolares, os pais concedem seu desejo. Uma bela tarde, eles convidam seus colegas de classe, quebram uma grande quantidade de lâmpadas e o apartamento fica totalmente submergido na luz. Esses dois contos causam espanto; se no primeiro, admiramos o dom de alguém poder sonhar por outrem, porque sonhar é essencial, e se perdemos essa capacidade, que bom seria se pudéssemos “terceirizar” a satisfação do que nos faz falta, a saber o susto, a surpresa, o inesperado! E no segundo conto, imaginem a beleza que seria se, ao quebrar-se uma lâmpada – e isso acontece frequentemente – nós inundássemos nossas casas e nossas vidas de luz! Tudo que se quer aí está descrito e contado por García Márquez; aplausos para o poder criador de um artista que nos permite recuperar nossos desejos e realizar nossas utopias!
