A resistência das pedras
Pedras são compostas de matéria mineral sólida e caracterizam-se por sua resistência. Essa resistência é sua propriedade de suportar agentes contrários a sua natureza, ou seja, pedras “procuram” manter-se firmes em seu antagonismo à corrosão. Porém, por quê discorrer sobre as qualidades das pedras em nossa época tão carregada de oposições? Porque esse pode ser um bom prólogo para revisitarmos uma obra teatral que já dura cerca de vinte e cinco séculos, a saber, a tragédia “Antígona”, de Sófocles, escrita na Grécia, em 441 a.C., a qual nos “ensina” a contradizer o absurdo. Sófocles viveu entre 495 e 406 a.C. e escreveu tragédias, entre as quais “Antígona”. Apesar de existir há tanto tempo, essa obra teatral ainda nos é útil para visualizarmos nela certas situações que nos concernem em nossa atualidade. A peça é centrada sobre a figura de Antígona, que possui dois irmãos, Etéocles e Polinice, os quais estabelecem um acordo de revezamento no comando de seu reino, Tebas, a cada ano. No entanto, Etéocles, que foi o primeiro a governar, não quis ceder o poder ao irmão Polinice que, revoltado, foi para uma cidade vizinha rival. Ali, reunindo um exército, Polinice enfrentou o irmão visando ao trono de Tebas. O conflito acabou com os irmãos se matando e, então, assumiu o poder Creonte, tio dos dois e de Antígona. Creonte, usando de seu poder, estabeleceu que o corpo de Polinice não receberia as honrarias tradicionais dos funerais, pois este, segundo seu critério, havia lutado contra a pátria. Já ao irmão, Etéocles, o rei ordenou que fossem dadas tais honrarias fúnebres. Além disso, determinou pena de morte a quem desobedecesse suas ordens. Entretanto, Antígona, irmã dos herdeiros e protagonista da peça, entendeu que esse procedimento do tio Creonte, agora rei, era arbitrário, não respeitando as leis naturais mais antigas ou divinas que estabeleciam que a todo homem cabia seu devido sepultamento. Essa crença antiga dos rituais de passagem era importante para que a alma não ficasse vagando eternamente sem destino. Com essa preocupação, Antígona preferiu correr o risco da morte para enterrar seu irmão despojado. Assim o fez e, efetivamente, é esse seu fim: ela é enterrada viva, seu tio manda aprisioná-la em uma caverna escavada na rocha, com pouco alimento, para assim ter um fim lento e cruel. Antígona pagou com a própria vida por sua rebeldia, por sua recusa a aceitar uma ordem violenta e sem fundamento. Antígona, obviamente, não é uma pedra, é uma personagem teatral, representa uma pessoa, especificamente, uma mulher, e em sua condição humana dotada de livre arbítrio, decide ultrapassar a especificidade da pedra, i.e., resiste bravamente à “corrosão” dos costumes que fora imposta a seu irmão. Em certas ocasiões, a recusa e a oposição são heroicas, na medida que reivindicam racionalidade aos atos humanos e rechaçam a brutalidade de uma situação. Um bom exemplo é o ocorrido na Segunda Guerra Mundial, no chamado “Dia D”, comemorado há pouco, em que o mundo ocidental resistiu bravamente a um regime arbitrário e a suas atitudes monstruosas.
É simples de entender que nem sempre essa oposição pode ser realizada, e é exatamente por isso que nós, seres humanos, necessitamos da inspiração na fortaleza das pedras para que elas nos sirvam de exemplo de conduta a ser traçada. Admito que possa parecer extravagante que nós, “animais racionais”, busquemos as pedras para nos indicar algo. Não importa, continua valendo o ensinamento de Carlos Drummond de Andrade, poeta brasileiro que viveu de 1902 a 1987. Em seu poema “No Meio do Caminho”, publicado em 1928, o autor nos diz: No meio do caminho tinha uma pedra / … / Nunca me esquecerei que no meio do caminho /tinha uma pedra / … / no meio do caminho tinha uma pedra.
O poeta nos repete várias vezes essa lição: quem já não teve uma “pedra” em seu caminho, e quão bravamente resistiu para daí sair ainda mais forte e mais humano?
