Esperando Godot, 1952-1953 – Samuel Beckett, 1906-1989

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Esperando Godot, 1952-1953

Samuel Beckett, 1906-1989

 

 “Esperando Godot” é uma peça de teatro escrita pelo dramaturgo irlandês Samuel Beckett, o qual viveu entre 1906 e 1989; ela foi escrita originalmente em francês, foi publicada pela primeira vez em 1952 e estreou em um pequeno teatro de Paris, em 1953; esta representação teatral é considerada como um dos principais textos do teatro do absurdo e como a principal obra de Samuel Beckett, sendo cotada por especialistas como um dos primeiros entre os cem maiores livros do século XX. Perguntamos: o que é esse “teatro do absurdo”, por que ele porta este nome? Vamos esclarecer: este tipo de peça faz parte de um estilo teatral que apareceu no século XX , à época da Segunda Guerra mundial, e caracteriza- se por uma ruptura total com os outros gêneros tais como a tragédia ou a comédia; é compreensível que tal quebra de continuidade artística tenha acontecido entre os anos 40 e 50, quando uma guerra monstruosa de alcance global havia quebrado todos os parâmetros de racionalidade e de convivência cordial; era bem isso, para representar uma realidade disforme, somente um teatro também irregular e provocador. Trata-se de um gênero, pois, apegado à queda do humanismo e ao traumatismo causado pela guerra; como exercício de resiliência psicológica, à época, este tipo de teatro é radicalmente oposto à realidade; pode-se pensar em uma fuga do real ou também em uma reformulação daquilo que se sofreu, até então. O enredo da peça é o seguinte: à noite, em uma estrada, há uma árvore, e surgem em cena dois personagens, um chama-se Estragon, o outro é Vladimir, eles são errantes neste caminho, e aparentemente, ambos esperam alguém que se chama Godot. Trata-se de uma peça de somente dois atos, dura pouco mais de sessenta minutos e compreende duas fases complementares, a primeira destaca o aborrecimento da espera e a segunda apresenta-nos o resultado dessa situação, ou seja, a angústia resultante de não se saber quem aguardamos com certeza, e se essa pessoa realmente virá ou não: tudo é incerto. Assistimos, assim, à representação de existências destituídas de significado e enredadas na falta de comunicação, o que acarreta a perda de toda a humanidade possível entre eles. No transcurso dos dois atos, as inquietudes nascem e crescem: será este o lugar certo para o possível encontro com Godot, será este o dia correto, talvez ele já tenha passado e não o tenhamos visto. Godot não veio, um jovem aparece, enviado pelo personagem ausente, para transmitir o recado que ele virá amanhã. Este é o final do primeiro ato. No segundo, mais dois personagens surgem e atuam por pouco tempo, em seguida seguem viagem, mas suas ações e diálogos tampouco levam à nenhuma solução ou esperança de presença de Godot. Mais adiante, ao final da peça, novamente entra em cena o jovem com a mesma mensagem, ou seja, Godot não virá, deverá fazê-lo amanhã: Estragon e Vladimir compreendem que sua trajetória até aqui foi inútil, e dizem um para o outro, ao mesmo tempo, “Vamos!”, mas eles não se movem. Há sempre analistas literários que afirmam ser o nome “Godot” uma referência a “Deus”, sendo “God” a palavra correspondente em inglês. Tal explicação permitiria que se atribuísse à obra teatral uma dimensão metafísica, ou seja, os dois personagens esperam a chegada de uma entidade transcendental para salvá-los, mas ela não vem jamais; em minha opinião, tal  análise não estaria fora de cogitação. De qualquer forma, a peça é seguidamente compreendida como uma ilustração do absurdo da vida, ou ainda como uma reflexão sobre a condição humana. Nenhuma dessas avaliações críticas é destituída de sentido, pelo contrário, podem caber tranquilamente no contexto apresentado pelo autor. Na realidade, é disso que é feita uma obra clássica, a saber, em primeiro, sua pertinência atemporal – ela não se restringe a uma época específica, ela pode ser adaptada ou entendida no tempo que for –  e a seguir, seu alcance múltiplo que permite nossas variadas interpretações. Quanto a nós, vamos dedicar-nos a explorar a palavra “esperar”; ela contém uma certa dose de inércia, devida ao fato de que aquele que espera acredita que algo sucederá, essa pessoa tem fé, confia que, de uma forma ou de outra, em algum momento, a situação presente e incômoda será resolvida em seu proveito, no futuro. Em consequência, perguntamos: “quando?” ou “o quê se faz, agora?” – e não o sabemos. Por mais estranho que possa parecer, é exatamente assim que agem – ou melhor – que aguardam, inertes, nossos dois “companheiros” de infortúnio dessa peça: eles – ou nós, se quisermos admitir nossa incapacidade de reação – melhor, “eles” angustiam-se, têm medo do vácuo em que se encontram, mas não avançam em direção à fuga dessa situação perigosa e difícil. Essa obra teatral é inquietante, certo, mas ainda mais angustiante é nossa vida real, o absurdo desse tipo de teatro não é nada face ao desequilíbrio e à insensatez de nossa sociedade contemporânea. Por outro lado, o mesmo verbo “esperar” pode oferecer-nos alguma coisa como provável, uma suposição de que algo melhor venha em nosso socorro. Vivemos uma atualidade tão incerta e, em muitos sentidos, tão repulsiva, que parece-me caber a nós apoiarmo-nos em nossa capacidade de exercício da razão e seguirmos em frente, sem nos atermos às diferenças que põem por terra nossa cordialidade e terminam por destruir nossa esperança, mas sim esforcemo-nos na busca da confiança que nos permita visualizar uma luz, por mais tênue que seja, mas ainda assim precursora de um reencontro compreensivo e humano. Talvez a função e a beleza da vida estejam exatamente aí: nessa recomposição constante de nosso horizonte panorâmico criado por nós mesmos, a duras penas.

 

Feliz Páscoa, bom recomeço a todos!

 

 

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