Canção do exílio, 1847
Gonçalves Dias, 1823 – 1864
Antônio Gonçalves Dias é um poeta brasileiro e ainda em vida foi reconhecido como o “poeta nacional do Brasil”, graças aos temas sobre os quais versou, em suas poesias. Nasceu em Caxias, no Maranhão, e faleceu em um naufrágio no litoral maranhense, quando voltava de uma de suas viagens a Portugal. Além de poeta, foi advogado, jornalista, teatrólogo e etnógrafo, tendo realizado estudos antropológicos junto a aldeias indígenas e onde muito pesquisou sobre as diversas línguas autóctones e as várias manifestações do folclore brasileiro; foi professor no prestigioso Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, e funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros; também realizou, por ordem do governo brasileiro, missões de coleta de documentos em arquivos europeus. É um grande expoente do romantismo brasileiro e da tradição literária conhecida como “indianismo”, onde destaca-se o curto poema épico “I-Juca-Pirama” e muitos outros poemas nacionalistas e patrióticos; considera-se sua obra-prima o poema “Canção do Exílio”, o qual aparece na coletânea “Primeiros Cantos”. A obra de Gonçalves Dia insere-se na corrente literária chamada “romantismo”, movimento este que ganhou contornos na Europa, desde a última década do século XVIII e perdurou até a segunda metade do século XIX, chegando ao Brasil através da obra de nosso poeta, entre outros autores. Vamos esclarecer um pouco mais sobre o que seja romantismo literário; este é o nome que recebeu o movimento artístico, político e filosófico que mudou a visão do mundo até então racional, para uma nova e revolucionária representação oposta, ou seja, predominam, agora, os temas da subjetividade individual, os anseios nacionalistas, a concretização da liberdade de escrita que acolhe os ideais utópicos e não mais as rígidas demonstrações dos arrazoados lógicos; em suma, este movimento estético exprime a revolta do individualismo contra a padronização, e boa parte do século XIX é marcada pelo lirismo, pela emoção, pelo “eu”. O romantismo é a arte do sonho e fantasia, valoriza as forças criativas do indivíduo e da imaginação popular, opõe-se à arte equilibrada dos clássicos e baseia-se na inspiração fugaz dos momentos fortes de emoções e de nacionalidades, e constrói sua trajetória na fé, no sonho, na paixão, na intuição, na saudade, no sentimento da natureza e na força das lendas nacionais. Exatamente aí, destaca-se nosso “poeta nacional” e sua obra maior; sua busca das raízes de nossa pátria teve acolhida em poemas que trataram de guerras indígenas, e também na “canção” que embala sua saudade pelo fato de estar distante de sua – e de nossa – terra natal, e por isso ele nos faz recordar que “Minha terra tem palmeiras, / Onde canta o Sabiá; / As aves, que aqui gorjeiam, / Não gorjeiam como lá. / Nosso céu tem mais estrelas, / Nossas várzeas têm mais flores, / Nossos bosques têm mais vida, / Nossa vida mais amores.” A corrente estética e política do romantismo, no Brasil, fundamentou-se sobre o momento histórico em que essa arte está inserida em nosso país: a chegada da Família Real, em 1808, início do século XIX, e a consequente reclassificação do território nacional, deixando de ser uma colônia de exploração e, doravante, passando a ser a sede do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, possibilitou que autores como José de Alencar, Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu e Castro Alves, tivessem respaldo suficiente para demonstrar seu amor patriótico. Àquela época, uma série de modernizações começou a ocorrer no país, destacando-se algumas como a criação da imprensa brasileira, a construção do Museu Nacional (incendiado em 2018), a fundação do Banco do Brasil, o decreto de abertura dos portos às nações amigas, a criação do Ministério da Marinha, das Relações Exteriores e do Tesouro Nacional, assim como a fundação da Casa de Suplicação do Brasil (o atual Supremo Tribunal Federal). Também na Europa, esse movimento foi tão forte a ponto de que tal idealismo patriótico viria colaborar definitivamente na consolidação dos Estados nacionais europeus. Agora, voltemos aos dados mais específicos do personagem principal deste texto, nosso poeta Gonçalves Dias; ele publicou mais de trinta obras, entre poesias, romances, peças teatrais, compêndios de etnografia e história, e um Dicionário da língua Tupi, publicado pela editora Brockhaus, em Leipzig, Alemanha, em 1858; algumas delas foram editadas ainda no período de sua vida, enquanto outras são póstumas. Quanto ao poema “Canção do exílio”, o poeta o compôs alguns anos antes de sua edição, em 1843, quando estudava Direito na Universidade de Coimbra, em Portugal; assim, com saudades de seu país, sentia-se exilado; e essa saudade fica bastante evidente na última estrofe, em que o autor expressa seu desejo de regressar: “Não permita Deus que eu morra, / Sem que eu volte para lá”. É curiosos notar que dois versos da “Canção do Exílio” são mencionados no Hino Nacional Brasileiro, composto em 1822: “Nossos bosques têm mais vida, / Nossa vida, (no teu seio) mais amores”. Ressalte-se, ainda, que Gonçalves Dias é o patrono da cadeira número 15 da Academia Brasileira de Letras, homenagem esta devida “a seu tão grande domínio sobre a língua portuguesa”. Ainda, pode-se afirmar, tranquilamente, que Gonçalves Dias é um precursor do movimento ecológico pela veemência com que defendeu a preservação da natureza. Uma personalidade de tão vasta cultura, como o é Gonçalves Dias, provoca-nos muito orgulho em sabê-lo nosso, brasileiro, mulato, reconhecido em locais privilegiados de excelência civilizatória; em um país em que falhamos ao construir uma nação, e tampouco criamos uma união fraternal, faz muita falta alguém como nosso poeta que reconhece – ele, sim – nossa identidade e nossa terra, a que chamamos “pátria”.
