Franz Kafka, 1883 – 1924
O Processo – póstumo, 1925
Franz Kafka é um escritor austro-húngaro de língua alemã, nasceu em Praga, capital da atual República Tcheca, em 1883, e morreu em Viena, em 1924. Kafka é considerado pelos especialistas como um dos maiores escritores do século XX. Ele foi um cidadão austro-húngaro porque nasceu no antigo império europeu que abrangia a Áustria e a Hungria, sendo que esse império existiu como tal, de 1867 a 1918. Após o ensino primário, ele é admitido no Ginásio de Praga, onde foi sempre um bom aluno e, findo este período, ele começa seus estudos universitários, onde dedica-se inicialmente, à Química, e em seguida passa ao Direito, onde fará sua formatura, além de dedicar-se às Letras e as Artes. Como profissão, trabalhou sempre em companhias seguradoras, inicialmente uma que tratava de situações comerciais, e outra que dedicava-se aos acidentes de trabalho na região da Boêmia. Ao mesmo tempo em que exerce suas atividades profissionais, Franz escreve e também alcança o título de Doutor em Direito, fazendo estágio de um ano no tribunal de Praga, em 1906. Ao lado de seu trabalho na Seguradora, ele segue uma rotina diária peculiar: pela manhã, trabalha no escritório, depois almoça com sua família, volta ao trabalho e recomeça a escrever, durante toda a noite. Seus primeiros textos apareceram em revistas, a partir de 1909; durante sua vida, são publicadas sete de suas obras, e mais nove são editadas após sua morte; alguns de seus escritos foram inutilizados pelo próprio autor, extremamente perfeccionista e, infelizmente, durante a ocupação nazista no país, muitos deles foram perdidos para sempre ou destruídos, visto que Kafka era de religião judaica. Como dissemos, os livros editados ainda durante sua vida são sete, e começam a aparecer em fins de 1912 e vão até 1922. Em 1913, é publicado “O Veredito”, cujo tema é próximo ao autor, devido a sua ocupação no tribunal. Em 1915, “A Metamorfose” (ou “As Metamorfoses”, o título original, em alemão, está no plural) surge para transformar-se em uma de suas obras mais célebres, juntamente com “O Processo”. “A Metamorfose” descreve as mudanças e as desgraças, enfim, sofridas por um representante comercial, Gregor Samsa, o qual se acorda, uma certa manhã, transformado em “um monstruoso inseto”. A partir dessa situação absurda, o autor nos apresenta uma crítica de alcance moral e social de múltiplas leituras possíveis, um amálgama de perguntas sobre a individualidade, sobre o rebaixamento de uma pessoa, sua sujeição, a solidariedade – ou não – da família, a solidão e, finalmente, a morte. Com o avanço no texto, termina-se por compreender que aquela situação inusitada pode ser, antes de tudo, não a metamorfose de Gregor Samsa, mas sim a de seus próximos e, porque não, a de todos em seu entorno. Tais questionamentos tornam esse romance ímpar pelo impacto causado em seus leitores, cada um de nós pode perguntar-se “em quê me transformei?”, ou ainda, “em quê minha sociedade transformou-se?” Continuando nossa breve exposição, chegamos à data de 1925, quando é editado postumamente “O Processo”. Neste livro, destaca-se a atmosfera de pesadelo, o ambiente sinistro, onde a burocracia e a sociedade impessoal cada vez mais apoderam-se do indivíduo. É espantoso pensarmos que esse texto foi escrito há quase um século, e que o mesmo adapta-se perfeitamente aos dias de hoje! O desprezo pelo ser humano, quer ele seja submetido ao sofrimento ou não, a falta de empatia para com seus próximos, são características absolutamente contemporâneas, onde o estamento vence a qualquer preço, em que as instituições do poder são mais importantes que as pessoas. Pois bem, em “O Processo”, essa situação é levada ao extremo, quando um homem, Joseph K., um belo dia, acorda-se e, por uma razão obscura – jamais se saberá de quê se trata – é preso e submetido aos rigores da “justiça”. Este livro é considerado como uma obra-prima da literatura mundial. O processo que segue é representado de uma maneira simbólica mas com detalhes absurdos dando a impressão de um sonho perverso; Joseph K. – cujo nome de família desconhecemos – em um primeiro momento, recusa sua acusação porque ele é inocente, mas à medida que os acontecimentos confusos sucedem-se, ele chega a convencer-se da realidade do processo e sujeita-se a tudo para pagar sua pena e finalmente conseguir sua liberdade. Chegamos ao capítulo X, o último do livro, e presenciamos que na véspera de seu aniversário, dois homens vêm buscá-lo para o executar; os carrascos conduzem Joseph K. até uma clareira fora da cidade e o assassinam, sem qualquer formalidade, usando um facão de açougueiro. “O Processo” é uma narrativa escura e envolvente, marcada pela estranheza e por uma atmosfera perturbadora; há leitores que indagam se Kafka se deu conta de que algum dia tal história seria uma espécie de previsão da realidade; de qualquer forma, à primeira vista e não sem razão, o assunto central é a burocracia, uma ilustração de um sistema legal defeituoso e cruel, mas à medida que aprofundamos a leitura, damo-nos conta de que o interesse maior da mesma é a descrição dos efeitos desse conjunto abusivo sobre a vida e o espírito de Joseph K. Uma curiosidade quanto à ordem de criação deste romance se impõe: a primeira cena a ser escrita pelo autor é a final, a cena da morte do herói; por quê? Porque já era sabido que ela aconteceria: o tema da desumanidade ou da inexistência da espécie “humana” é recorrente no trabalho de Kafka e sobressai como nunca neste “processo”. A obra de Franz Kafka pode ser vista como símbolo do ser humano abandonado dos dias atuais; abandonado por aqueles que deveriam valorar sua humanidade, deixado de lado pela importância maior do “sistema”, do “mercado”, da “aparência”; desta crítica não escapa tampouco aquele que renunciou de ser humano, ou seja, para quem só importa o que brilha e é superficial, e que se deixa idiotizar por aparatos repetitivos e sem o mínimo conteúdo intelectual. Reiteramos, de qualquer modo, que a obra de Kafka aborda os temas da solidão, dos sonhos – impossíveis ou não – dos medos e dos complexos; é desse autor que se criou o adjetivo “kafkiano”, quando nos referimos a uma situação que escapa a qualquer lógica ou racionalidade, quando o absurdo se impõe e nos deixa confusos. Que humanidade está presente aí! O ser humano é dotado exatamente desse estranhamento, dessa admiração e espanto frente à vida, frente ao grupo que nos rodeia e à sociedade que nos recebe. Usemos a inteligência e avancemos até alcançarmos essa humanidade, para que nos tornemos, enfim, “seres humanos”.
