Gonzalo de Berceo – século XIII
Gonzalo de Berceo é um eclesiástico e poeta castelhano do século XIII, autor de cerca de uma dúzia de coletâneas de inspiração religiosa. Considerado o primeiro poeta identificado em língua espanhola, sua vida, contudo, é pouco conhecida, apesar da importância de suas composições. É difícil reconstituir com precisão a vida de Berceo : é provável que ele tenha nascido por volta do ano de 1196, na vila de Berceo, a comunidade autónoma do norte da Espanha – no coração de La Rioja. Posteriormente, o jovem foi educado no mosteiro de San Millán de Suso, ao qual permaneceu vinculado durante toda sua carreira eclesiástica. Contudo, Berceo não pertencia ao clero regular; nesse mosteiro, exerceu as funções de diácono – significa uma pessoa que serve e ajuda a igreja – e, mais tarde, de sacerdote. Gonzalo de Berceo faleceu, muito provavelmente, em 1264.
Sua formação intelectual foi muito ampla; assim, o termo *maestro*, mencionado em *Milagros de San Millán de la Cogolla*, parece referir-se a um título universitário – provavelmente obtido nos *Estudios Generales* (precursores da universidade) de Palencia – comunidade autónoma de Castela e Leão – , entre 1223 e 1236. Berceo possuía notórios conhecimentos administrativos e jurídicos, que lhe permitiram exercer a função de notário do abade do mosteiro. Suas atribuições principais na abadia estavam provavelmente ligadas a esse campo. Além disso, sua cultura literária é evidente em sua obra; Gonzalo de Berceo domina a retórica, as letras latinas medievais, bem como a literatura em línguas românicas vernáculas, notadamente o francês.
Toda sua obra pertence ao movimento conhecidos por seus nomes como mestres próprios dos clérigos, em oposição às formas favoritas dos jograis. O verso utilizado é o alexandrino, agrupado em estrofes de quatro versos denominados *cuaderna vía*; apenas o canto dos vigias que guardam o túmulo de Cristo é composto por dísticos mais curtos, com refrão.
Observamos que a obra de Berceo pertence a três categorias distintas de poesia religiosa: vidas de santos (as de São Emiliano, São Domingos e Santa Oria – o Aurea – e São Lourenço, esta última tendo permanecido incompleta nos manuscritos), obras exegéticas (*O Sacrifício da Missa*; *Dos sinais que anunciarão o Juízo Final*) e obras dedicadas a Nossa Senhora (*Duelo*, sobre suas lamentações junto à Cruz; *Loores*, dedicados ao seu louvor; *Milagros*, que reúnem vinte e cinco relatos sobre sua intervenção milagrosa).
A isso podemoa acrescentar a tradução de três hinos do Breviário (*Veni Creator*, *Ave Maris Stella*, *Tu Christe*); outros estudosos afirmam que também se pode atribuir algumas composição em latim.
A obra de Gonzalo de Berceo foi organizara pelo Manuscrito de “Notre Dame” no XIVe siclo; por outro lado, Don Tomás Antonio Sánchez de Uribe (1723-1802) recolheu as obras de Berceo em quatro volumes.
As doze partes do total se repartem em três grandes grupos, a saber : quatro grandes “estudos da vida” – hagiografia; duas obras doutrinárias; três obras marianas; finalmente, três ninhos traduzidos do latim.
A poesia de Gonzalo de Berceo é uma poesia culta, por um homem erudido e versado no manejo da retórica.
Sua escrita é, contudo, impregnada de referências à literatura oral popular. O poeta recorre ao ofício dos jograise e inspira-se, também, na arte oratória dos pregadores. Ele extrai da linguagem e da vida cotidianas um vocabulário e imagens vívidos e pitorescos; esse procedimento facilita ainda mais a popularização de seus temas religiosos.
Berceo parece ter sido bastante conhecido em seu tempo, e outros poemas do mester de clerecía carregam sua marca [clerecía é o movimento literário da Idade Média na Espanha].
Finalmente, com exceção de Hurtado de Mendoza (1550), Sánchez (1730) e alguns raros eruditos, será necessário esperar pela «geração de 98» para que o velho poeta seja valorizado como merece. Sua revanche será, no entanto, brilhante, e ele será elogiado, imitado, citado, considerado «o primeiro» por poetas do calibre de Antonio Machado e Rubén Darío, que repetirão muitas vezes sua admiração por essa primeira figura conhecida da poesia castelhana.